VALOR ECONÔMICO (SP) • BRASIL • 10/08/2016
Os argentinos perderam espaço para os colombianos e mexicanos como destino dos investimentos brasileiros na América Latina. Dos 46 projetos de investimentos colocados em operação de 2012 a 2015 na região, 10 foram para a Colômbia e outros 10 foram para o México. A Argentina ficou em quarto lugar, com sete projetos, logo atrás os peruanos, com oito planos de investimento direto. Historicamente, a Argentina é o destino preferido dos investimentos brasileiros. Dados de um período mais longo, de 1969 a 2015, mostram que o país vizinho recebeu 30,07% dos investimentos brasileiros. Em segundo lugar vem o México, com 14,03% e depois o Chile, com 11,36%. A perda de espaço dos argentinos aconteceu paralelamente ao encolhimento dos investimentos brasileiros na América Latina. As entradas de investimentos caíram de 212, entre 2005 e 2009, para 80 de 2010 até o ano passado. Os dados são de pesquisa do Observatório de Multinacionais Brasileira daESPM, e levam em consideração apenas investimentos que resultaram na instalação de escritórios de venda, centros de distribuição e unidades industriais já em operação. Os dados contemplaram 483 subsidiárias brasileiras localizadas em 16 países latinoamericanos, em diferentes setores. Gabriel Vouga Chueke, coordenador da pesquisa, explica que a queda no número de investimentos nos últimos anos acontece também em razão de uma base relativamente alta de comparação em relação a período imediatamente anterior. Até 2008, conta ele, o país passou por um período com altos níveis de investimentos fora do país. A reação à crise financeira internacional, porém, lembra o coordenador da pesquisa, provocou uma política anticíclica que deu prioridade à elevação do Produto Interno Bruto (PIB) com o crescimento do consumo doméstico. “Ao mesmo tempo, o menor crescimento dos demais países e a valorização da taxa de câmbio fizeram com que as empresas brasileiras voltassem os olhos para o mercado interno.” Para Chueke, porém, o cenário atual, com dólar mais caro, ainda não deve ter efeito imediato no aumento das operações de investimentos brasileiros na América Latina. “Neste momento, as empresas têm procurado mais aproveitar o câmbio para manter a sua capacidade de produção por meio da exportação.” De qualquer forma, diz Chueke, o novo quadro argentino, com o presidente Mauricio Macri, eleito em novembro do ano passado, pode fazer com que o país vizinho volte a ganhar maior espaço nos investimentos brasileiros nos próximos anos. Com o novo governo, diz ele, surgiram expectativas de recuperação econômica da Argentina. Francisco Blagevitch, superintendente da Algar Tech na América Latina, da área de tecnologia da informação, conta que a proximidade geográfica e a maior semelhança cultural fazem com que a Argentina se torne o alvo natural quando uma empresa brasileira planeja começar a internacionalização regional. Com o início das reformas e ajustes no país vizinho, o executivo avalia que dentro de três anos a Argentina volte a entrar com mais força no radar dos investimentos de companhias brasileiras. Blagevitch conta que o primeiro passo da Algar Tech fora do país foi efetivamente com a aquisição de uma empresa que atuava na Argentina e no Chile. O investimento mais recente, porém, há três anos, foi na Colômbia. O superintendente conta que a decisão de colocar um pé fora do país permitiu atender de forma mais ampla a base de clientes estratégicos conquistados no Brasil. Metade deles, diz o executivo, possui operações em outros países na América Latina. Com a expansão, diz o superintendente, a empresa conseguiu também conquistar novos clientes. Cerca de 40% dos clientes dos demais países da América Latina, contabiliza Blagevitch, são comuns à unidade brasileira. Novos investimentos na região, diz, continuam nos planos da empresa, que hoje tem 250 de seus 13,75 mil funcionários em outros países latinoamericanos. Cláudia Colaferro, presidente da Dentsu Aegis Network na América Latina, empresa da área de publicidade, também acredita que, no médio e longo prazos, a Argentina deve voltar a ser um alvo de investimentos importantes dentro da região. Ela diz, porém, que a Colômbia e o México ainda devem manterse como destinos atraentes nos próximos anos. A Colômbia, avalia Cláudia, por conta do crescimento econômico consistente que tem apresentado. O México, em razão das perspectivas positivas para o país com a recuperação da economia americana. Uma maior integração dos países da região, via acordos comerciais e de investimentos, acredita a executiva, poderia ajudar a impulsionar os negócios e acelerar a diversificação de atividades. O menor crescimento do PIB argentino média de 0,5% nos últimos cinco anos, de acordo com o Banco Mundial em relação a Colômbia e México de 4,6% e de 2,1%, respectivamente , diz Chueke, ajudam a explicar a perda de espaço do país vizinho nos investimentos brasileiros. Mas esses países, diz o coordenador da pesquisa, tendem a ser mantidos no radar das companhias nacionais por serem populosos e terem PIB per capita relativamente alto na região. “A estratégia das empresas brasileiras foca mais o tamanho de mercado consumidor e lucro e nem sempre há visão maior de longo prazo”, explica Chueke. “Questões como burocracia ou falta de infraestrutura não pesam tanto, talvez porque as empresas brasileiras já estejam habituadas a enfrentar essas dificuldades.” Um dos aspectos levantados nos países anfitriões de investimentos, por exemplo, é o da corrupção. O estudo usa o indicador de corrupção da Heritage Foundation e mostra que quase 80% das subsidiárias brasileiras na América Latina estão em países com nível de corrupção maior que a média da região. Os investimentos brasileiros dão preferência, porém, a países com menor risco político que o do Brasil. São nesses locais que se encontram 60% do investimento brasileiro na América Latina, aponta o estudo. Outra preocupação é a proteção aos investimentos. A pesquisa aponta que o score médio dos países da amostra é de 5,2. Os destinos preferenciais de investimentos estão justamente entre os países com maiores índices de proteção ao investimento, ou seja, mais seguros, como Colômbia, com índice de 8,3. Países também com bom desempenho nesse indicador, segundo a pesquisa, são Peru, Argentina, Chile e México.
